A Coreia do Norte não costuma estar no centro das atenções do futebol masculino, mas no futebol feminino construiu, ao longo de menos de quatro décadas, um projecto de sucesso notável e pouco comum no desporto mundial. A estratégia baseou-se em apoio estatal direto, formação rigorosa e a utilização do desporto como instrumento de projeção internacional.
A fundação e o olhar estratégico do Estado
O futebol feminino na Coreia do Norte começou a ganhar forma nos anos 80 e 90 — o primeiro jogo internacional da selecção feminina registou-se em 1989.
Para as autoridades norte-coreanas, o desporto é mais do que lazer: é uma forma de afirmar soberania, identidade nacional e visibilidade no plano global. “O desporto internacional é um dos poucos meios para demonstrar a nossa existência à comunidade internacional”, afirmou um académico que analisa o regime norte-coreano.
Formação rigorosa e investimento sistemático
A Coreia do Norte instituiu programas escolares e centros de treino onde raparigas são claramente integradas no sistema desportivo, com instalações, treino e apoio em pé de igualdade com os homens — algo pouco comum em muitos países nessa altura.
Esse investimento resultou na constituição de um campeonato nacional feminino, a Women’s Premier League, desde 2001-02.
Resultados que impressionam
A consistência no desempenho internacional é evidente. Por exemplo, as selecções femininas sub-17 e sub-20 conquistaram múltiplos títulos. A Coreia do Norte venceu o Mundial Sub-20 feminino em 2006, 2016 e 2024.
No nível sénior, ainda que o Mundial tenha sido um desafio, o país atingiu os quartos-de-final em 2007.
O que é mais relevante: em competições asiáticas e de base juvenil, o país quase sempre domina ou está entre os melhores.
O funcionamento por detrás do sucesso
A disciplina colectiva, o treino intenso, a formação desde tenra idade e a integração das atletas no sistema nacional foram apontados como factores chave. Um relatório da DW sublinhou que “as mulheres na Coreia do Norte recebem instalações, material e treino ao nível dos homens” e que esse investimento surge porque o regime identificou-no como oportunidade de sucesso desportivo.
Além disso, muitos jogadores permanecem num sistema quase fechado, com pouco contacto externo, o que também contribui para misteriosa adaptação táctica e físico-mental.
Projecção internacional e um símbolo de propaganda
Num regime onde o desporto muitas vezes cumpre papel político, os êxitos das selecções femininas são exibidos como símbolos da “força nacional”. Após vitórias, as atletas eram recebidas com grande aparato em Pyongyang, segundo a agência estatal.
Desafios e incógnitas
Apesar dos êxitos juvenis, há ainda incógnitas sobre a sustentabilidade da hegemonia senior, transparência de dados e condições fora dos relvados. A Coreia do Norte retirou-se de várias competições devido à pandemia e enfrenta limitações de calendário internacional.
Ainda assim, o modelo permanece único: um Estado que decide apostar forte no futebol feminino como veículo de visibilidade global.
Conclusão
Em resumo, a ascensão da Coreia do Norte no futebol feminino é resultado de uma confluência entre apoio estatal, formação meticulosa, valorização das mulheres no desporto e objectivos claros de projecção internacional. Num mundo onde muitas selecções ainda lutam por recursos e visibilidade, o país asiático oferece um exemplo, ainda que controverso, de como se pode transformar o futebol feminino numa narrativa de poder, orgulho e resultados concretos.


